Parte 1
— “Doutor… doutor, venha ver isto”, disse Caleb, com a voz trêmula, recuando como se a maca tivesse se movido.
O Dr. Stephen Fonseca levantou os olhos da mesa de instrumentos. Ele trabalhava no necrotério central da Filadélfia há mais de quinze anos, e quase nada conseguia abalar sua compostura. Quase nada. Mas, naquela noite, o corpo deitado sobre o aço gelado não era um corpo comum.

Era uma freira.
A jovem ainda vestia seu hábito preto, cuidadosamente disposto sobre seu corpo esguio. Seu rosto era sereno, quase luminoso, como se não estivesse morta, mas apenas dormindo após um longo dia de oração. Ela havia sido trazida de um convento nos arredores da cidade com ordem para autópsia, já que ninguém conseguira explicar com certeza por que ela havia morrido tão de repente.
— “O que está acontecendo?” perguntou Fonseca, aproximando-se.
Caleb engoliu em seco.
— “Há uma abertura no tecido… nas costas. E acho que ela tem uma tatuagem.”
Fonseca franziu a testa.
— “Isso não seria tão estranho. Nem todas entram no convento quando crianças. Algumas tiveram uma vida antes dos votos.”
Mas nem ele parecia convencido.
Ao se aproximar, viu uma marca escura surgindo por uma fenda no hábito. Trocou um olhar rápido com Caleb e, sem dizer nada, os dois viraram o corpo com cuidado. Fonseca murmurou uma breve oração por reflexo, como sempre fazia quando um cadáver inspirava mais respeito do que o próprio hábito. Em seguida, pediu uma tesoura e começou a cortar o tecido.
Levou apenas alguns segundos para sua respiração parar.
Não era uma tatuagem. Era uma mensagem.
Uma inscrição escrita diretamente na pele da jovem, com uma caligrafia trêmula, mas perfeitamente legível:
Não realize a autópsia. Espere duas horas. O que você precisa está no bolso do meu hábito.
Caleb fez o sinal da cruz imediatamente.
— “Não… isso não pode ser.”
Fonseca passou o dedo cuidadosamente sobre as letras, como se ainda duvidasse do que seus olhos viam.
— “Verifique o bolso”, ordenou em voz baixa.
O jovem enfiou a mão em um dos lados do hábito. A princípio, não encontrou nada. No segundo bolso, porém, seus dedos tocaram um pequeno objeto rígido. Ele o retirou lentamente.
Um pen drive.
Os dois se olharam, sem saber o que dizer. Do lado de fora, nos corredores, o necrotério soava como sempre: rodas de metal, passos distantes, o zumbido dos refrigeradores. Mas dentro daquela sala, a atmosfera havia mudado.
Fonseca levou o dispositivo até a sala ao lado, onde mantinham um computador antigo para revisar registros e arquivos laboratoriais. Caleb o seguiu, sem tirar os olhos do corpo, como se temesse que a freira despertasse a qualquer momento.
Quando abriu o arquivo, ela apareceu na tela.
O mesmo rosto pálido. O mesmo hábito. A mesma cruz pendurada no pescoço. Ela estava sentada em uma cama simples, em um quarto austero, iluminado apenas por uma lâmpada fraca. Seus olhos refletiam medo.
— “Se você está assistindo a isto”, disse ela com a respiração ofegante, “é porque meu corpo já chegou ao necrotério… ou porque algo pior aconteceu comigo.”
A pele de Caleb se arrepiou.
— “Não tenho muito tempo. Por favor, não confie na Madre Superiora. Ela não é quem diz ser. Não—”
De repente, batidas fortes foram ouvidas em uma porta. A jovem se virou, aterrorizada, e o vídeo foi interrompido. O silêncio que tomou conta da sala era tão denso que doía.
— “Precisamos chamar a polícia agora”, sussurrou Fonseca.
Mas, antes que pudesse se levantar, um som ecoou no corredor. Três batidas secas. Uma pausa. Mais três.
Fonseca dirigiu-se à porta principal do necrotério, com o coração batendo mais rápido do que o normal. Quando a abriu, congelou.
Diante dele estava uma mulher de cerca de sessenta anos, com um hábito impecável, um crucifixo no peito e um sorriso suave que não lhe trazia nenhuma paz.
— “Boa noite, filho”, disse ela com voz doce. “Vim me despedir da irmã Agnes.”
Fonseca sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A Madre Superiora havia chegado. E algo dentro dele gritava, sem explicação, que ele não deveria deixá-la entrar.